El Niño pode deixar 84% do Brasil mais quente, aponta plataforma interativa

Um estudo divulgado pela empresa de tecnologia ambiental MORFO aponta que 84% do território brasileiro pode registrar temperaturas pelo menos 0,5°C acima da média histórica durante a próxima estação chuvosa, entre 2026 e 2027, em decorrência dos efeitos do El Niño. A estimativa representa mais de 700 milhões de hectares e considera o comportamento do fenômeno em comparação com registros climáticos desde 1981.

Além do aumento das temperaturas, a análise indica que a distribuição das chuvas deve apresentar diferenças significativas entre as regiões do país. Enquanto parte do Norte, Nordeste e Centro-Oeste tende a enfrentar condições mais secas, o extremo Sul pode registrar volumes de precipitação acima do habitual.

O levantamento compartilhado com a CNN Brasil também aponta que 648 municípios podem ter uma redução de pelo menos 20% no volume de chuva da estação. Em 38% do território nacional, a tendência é de diminuição das precipitações. Em contrapartida, 4% da área analisada pode ficar mais úmida, concentrada principalmente na região Sul.

Outros 58% do território não apresentam uma relação estatisticamente mensurável entre a ocorrência do El Niño e o volume de chuva durante a estação chuvosa. Isso significa que, nesses locais, os dados históricos utilizados não permitem identificar uma influência consistente do fenômeno sobre as precipitações.

A análise foi elaborada a partir de 44 anos de registros climáticos e de 100 mil simulações para cada uma de 11.763 células de aproximadamente 28 quilômetros. O estudo considera a estação chuvosa de 2026-2027, definida pelos cinco meses mais chuvosos de cada localidade, com o período de maior precipitação concentrado entre dezembro e fevereiro.

Onde o El Niño pode provocar mais mudanças

A combinação entre temperaturas mais elevadas e redução das chuvas pode atingir 37% do território brasileiro, abrangendo 1.111 municípios. Segundo a MORFO, esse cenário tende a se concentrar principalmente nas regiões Norte e Nordeste.

Na região Norte, 55% da área deve apresentar condições simultaneamente mais quentes e secas. Nos locais em que a influência do fenômeno é mensurável, a Amazônia pode registrar uma redução de 16% no volume de chuva da estação, equivalente a aproximadamente 237 milímetros, além de temperaturas 0,9 °C acima da média.

No Nordeste, 47% da região pode enfrentar a combinação de calor e menor volume de precipitações. Na Caatinga, a estimativa é de uma redução de 22% das chuvas. Já no Cerrado, a diminuição projetada é de 15%, aproximadamente 177 milímetros, acompanhada de um aumento de 0,8 °C na temperatura.

O cenário é diferente no Sul. Segundo o levantamento, 97% do bioma Pampa tende a receber mais chuva, com um aumento estimado de 29% nas precipitações.

A diferença também aparece quando são observados municípios específicos.

Em Calçoene, no Amapá, a projeção aponta uma redução de 36% das chuvas durante a estação, o equivalente a aproximadamente 780 milímetros. No sentido oposto, Barra do Quaraí, no Rio Grande do Sul, pode registrar um aumento de 52% no volume de precipitação. Os dois municípios estão separados por aproximadamente 3.800 quilômetros.

Chuvas podem demorar mais para se firmar

Outro aspecto considerado pelo estudo é o momento em que as chuvas começam a se estabelecer em cada localidade. A análise indica que o início da estação chuvosa pode sofrer atrasos significativos em algumas áreas, o que também interfere no planejamento de atividades que dependem da disponibilidade de água.

Em Curuá, no Pará, por exemplo, as precipitações podem se firmar aproximadamente 74 dias depois do que seria esperado em um ano neutro. Com isso, a janela considerada adequada para o plantio pode passar de cerca de 154 para 79 dias.

Entre as regiões de plantio analisadas, o maior atraso projetado é na área de Ilhéus e Itabuna, na Bahia, com 43 dias. Em seguida aparecem Santarém, no Pará, com 41 dias, e Altamira, também no Pará, com 34 dias.

A mudança no calendário das chuvas pode trazer consequências para a agricultura e para projetos de recuperação ambiental. O atraso na precipitação pode exigir alterações no período de semeadura, na preparação do solo e na disponibilidade de mudas e sementes.

A MORFO também cita o caso de Marabá, no sudeste do Pará. Em episódios de El Niño muito forte, um plantio realizado em outubro recebeu 32% menos chuva nos três primeiros meses. Já um eventual replantio entre março e abril enfrentou uma redução de 36% nas precipitações.

Como o estudo foi elaborado

Para desenvolver as projeções, a equipe utilizou três conjuntos principais de informações: dados históricos de precipitação do CHIRPS, estimativas de temperatura do ar do ERA5-Land e o índice ONI, utilizado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) para acompanhar a intensidade do El Niño.

Os pesquisadores consideraram 44 estações chuvosas registradas desde 1981 em cada área analisada. A partir desses dados e das probabilidades de intensidade do fenômeno divulgadas pela NOAA em 8 de outubro, foram realizadas 100 mil simulações para cada célula geográfica.

A empresa ressalta, entretanto, que os resultados representam cenários climáticos regionais, e não previsões exatas para um determinado dia ou propriedade. Além disso, vale lembrar que o El Niño não é o único fator responsável pelas condições meteorológicas.

Plataforma permite consultar projeções por município

Os dados da análise estão disponíveis gratuitamente no El Niño Explorer, ferramenta interativa criada pela MORFO. A plataforma permite consultar cenários de temperatura e precipitação para municípios brasileiros, estados e outras localidades do mundo.

Ao selecionar uma cidade ou região, o usuário pode visualizar as projeções mês a mês, consultar o histórico climático e observar possíveis mudanças no início da estação chuvosa. A ferramenta também apresenta informações sobre os períodos de maior risco para o plantio.

A iniciativa busca detalhar os efeitos do fenômeno em uma escala mais localizada, complementando análises climáticas que normalmente apresentam tendências para regiões inteiras.

A MORFO explica que o estudo climático é apenas uma das fontes utilizadas em seus modelos de planejamento ambiental. A plataforma da empresa também considera informações sobre vegetação, uso do solo, declividade, desmatamento, biodiversidade, disponibilidade de água e risco de fogo.

O que dizem os órgãos oficiais

As projeções da empresa apresentam tendências semelhantes às apontadas pelo Painel El Niño 2026-2027, elaborado por instituições federais brasileiras.

A quinta edição do boletim, divulgada em 29 de outubro, indica que o fenômeno deve permanecer ativo até pelo menos o início de 2027, com elevada probabilidade de atingir intensidade muito forte.

Para o trimestre entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, a previsão oficial aponta maior probabilidade de chuvas acima da média na Região Sul e em partes do Sudeste e do Centro-Oeste. Em grande parte do Norte e em áreas do Nordeste e do Centro-Oeste, a tendência é de precipitações abaixo da média.

As temperaturas também devem permanecer acima do normal em quase todo o país, principalmente na Região Norte. No Rio Grande do Sul, a tendência indicada é de temperaturas abaixo da média.

O boletim é produzido conjuntamente pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).

O monitoramento do fenômeno continua em andamento. Está prevista a divulgação de uma nova discussão diagnóstica sobre o El Niño em 12 de novembro, data que poderá trazer uma atualização das perspectivas de intensidade e duração do evento.

 *Sob supervisão de Carolina Figueiredo

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