Lula fez campanha na ONU e chamou isso de realismo

Sou realista, da variedade trágica, que é a menos animada de todas. Trágica no sentido de Agostinho: a cidade dos homens vive da libido dominandi, o desejo de dominar, que a política pode conter e nunca curar. Acredito que o poder se exerce por interesse e que a força decide mais do que a razão gostaria. Por isso prestei atenção quando Lula, abrindo a Assembleia Geral da ONU, disse não desconhecer “as realidades do poder” e garantiu: “Isso não é idealismo. É o mais puro realismo”.

O realismo de Lula durou uma frase. A seguinte foi esta: “A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política”. Bobagem.

A fórmula corrigida é de Clausewitz, está no primeiro capítulo de Da guerra e costuma circular como licença de general. Diz quase o contrário. Clausewitz escreve que a intenção política é o fim e a guerra, o meio. No oitavo livro, apura a ideia numa linha que vale o tratado, cito no original para gastar meu alemão: a guerra hat freilich seine eigene Grammatik, aber nicht seine eigene Logik – tem, de fato, sua própria gramática, mas não sua própria lógica. A lógica continua pertencendo à política. Daí que a guerra possa ser negociada e interrompida. Ela serve a alguém que quer alguma coisa. Quem quer alguma coisa pode ser levado a querer menos.

Sem a política, quem decide qual guerra condenar é a filiação. Lula tem seus amigos, e a gramática do discurso mostra quais