“Guerra interna”: Como a crise no STF repercute na imprensa internacional

A imprensa internacional tem repercutido a crise instaurada no STF (Supremo Tribunal Federal) após o ministro André Mendonça retirar o sigilo de um relatório da PF (Polícia Federal) contendo trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo dono do extinto Banco Master.

O espanhol El País destacou, por exemplo, que o cenário jurídico-político brasileiro “se agitou de maneira extrema com o estopim de uma guerra aberta dentro do Supremo Tribunal”. O jornal acrescentou que a crise tem potencial para alterar a dinâmica da disputa presidencial de outubro.

“O STF, um ator político de primeira ordem, vive uma das piores crises de sua história devido a denúncias de suspeitas de corrupção contra o poderoso e controverso Alexandre de Moraes”, escreve o El País, que trata o caso Master como “um monstro de sete cabeças, ao estilo da Lava Jato há uma década, que levantou suspeitas sobre dezenas dos homens mais poderosos de Brasília”.

“O juiz Moraes, aclamado como o salvador da democracia brasileira contra as tentativas de golpe de Bolsonaro, agora é suspeito em um caso de corrupção devido à sua estreita relação com Daniel Vorcaro, o banqueiro acusado da maior fraude da história do Brasil”, pontua.

Uma reportagem publicada no Washington Post destaca na manchete: “Juiz brasileiro que prendeu Bolsonaro agora está sob fogo cruzado por supostos vínculos com banqueiro descredibilizado.”

A reportagem detalha a pressão que Moraes enfrenta para renunciar e descreve o caso do Banco Master como um escândalo que envolve “vários parlamentares, incluindo o senador Flávio Bolsonaro, candidato da oposição, e um aliado histórico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.

O diário francês Le Monde escreveu que “uma simples troca de mensagens abalou uma das instituições democráticas mais robustas do Brasil”.

“Essas revelações podem ser apenas o começo do envolvimento de figuras importantes no caso Master, que já representa a pior crise da história do STF”, acrescentou o Le Monde.

A rádio pública francesa RFI analisa que as revelações da última semana “dão uma nova dimensão” ao caso do Banco Master.

“Talvez o aspecto mais explosivo do caso não seja o conteúdo das mensagens, mas a forma como elas foram divulgadas”, escreveu a RFI ao explicar a retirada de sigilo do relatório da PF pelo ministro André Mendonça.

“Esta é uma decisão particularmente delicada, visto que Mendonça foi ministro da Justiça durante o governo de Jair Bolsonaro, que o nomeou para o STF em 2021. O juiz está, portanto, examinando elementos que poderiam comprometer um de seus colegas, Alexandre de Moraes, que se tornou um dos principais alvos do campo de Bolsonaro após seu papel central nos processos contra o presidente”, acrescentou.

A emissora do Catar, Al Jazeera, chamou atenção ao fato da crise no STF ser marcada por uma disputa entre Moraes e Mendonça. “A disputa gira em torno do ministro Alexandre de Moraes, que supervisionou o caso que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro, e do ministro André Mendonça, indicado por Bolsonaro”, escreveu.

O argentino La Nación pontua que, a um mês das eleições, o epicentro da política brasileira não está nos comícios, mas na Praça dos Três Poderes.

“Dois ministros do STF acusam-se mutuamente de conduta criminosa, o procurador-geral da República pede o arquivamento de uma investigação da PF, e o presidente do Tribunal tenta conter uma disputa que afeta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro”, resume o jornal, que classifica a crise como uma “guerra interna no Judiciário brasileiro”.

“O gatilho é o desdobramento do caso Banco Master, entidade liquidada em novembro de 2025, cujo antigo proprietário, Daniel Vorcaro, está preso pelo maior esquema de fraude bancária da história do Brasil e teceu uma rede de contatos que alcança juízes, autoridades e líderes de todo o espectro político”, acrescenta o La Nación.

Ainda na Argentina, o Clarín destacou o embate entre Moraes e Mendonça. “Em novo capítulo da crise, Moraes pediu que o tribunal investigue o seu colega Mendonça por indícios de “conduta imprópria”, “abuso de autoridade” e “favoritismo a certos grupos políticos” na decisão que o tem como alvo”, escreveu o jornal de maior circulação do país.

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