O Estudiantes de La Plata fez história na noite desta quinta-feira (22) ao derrotar o Flamengo nos pênaltis e avançar para a final da Copa Libertadores. Na grande decisão, o clube vai encarar o Palmeiras, que eliminou o Fluminense neste meio de semana.
Se dentro de campo o Estudiantes colhe os frutos, os bastidores em solo argentino revelam um clube engajado em uma das maiores rupturas institucionais da história do futebol sul-americano.
Ao contrário da esmagadora maioria das equipes de seu país, historicamente organizadas como associações civis sem fins lucrativos, o clube de La Plata transformou-se na principal trincheira a favor da abertura para o modelo de Sociedades Anônimas Desportivas (SADs) na Argentina.
Sob a liderança convicta de seu presidente, o ex-jogador Juan Sebastián Verón, o “Pincha” assumiu um posicionamento solitário e corajoso no cenário local, batendo de frente com a ideologia vigente e as rígidas diretrizes da Associação de Futebol Argentino (AFA).
Segundo Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito desportivo e sócio do Carlezzo Advogados, a briga do Estudiantes a favor da abertura para o modelo de Sociedades Anônimas Desportivas (SADs) na Argentina não é em vão.
“O Brasil já passou por esse debate. A SAF trouxe investimento, profissionalizou a gestão e devolveu competitividade a clubes que estavam afundados em dívidas. A Argentina não precisa copiar o modelo brasileiro, mas precisa ao menos dar aos seus clubes o direito de escolher que caminho querem seguir”, acrescentou.
Esse embate institucional não ocorre no vácuo e reflete uma guerra política que se arrasta há anos na Argentina. Desde que assumiu o poder, o presidente Javier Milei transformou a liberação das SADs em uma de suas grandes bandeiras para modernizar o desporto e atrair capital estrangeiro, mas o processo encontra-se atualmente num forte impasse jurídico.
Embora o governo federal tente forçar a abertura comercial por meio de decretos de necessidade e urgência, a AFA, controlada por Claudio “Chiqui” Tapia, tem conseguido travar as medidas nos tribunais e chegou a alterar o seu próprio estatuto para prever a punição com desfiliação imediata de qualquer clube que adote capitais externos. Nesse tabuleiro de pressões que divide o país, o Estudiantes desponta praticamente como o único clube de peso a desafiar o sistema da federação.
O próprio Verón chegou a sofrer uma dura suspensão de três meses imposta pelo tribunal disciplinar da entidade máxima argentina após incidentes e protestos públicos contra os mandos da AFA, explicitando o preço político pago por bater de frente com o status quo.
Nesse tabuleiro de pressões, intimidações coletivas e ameaças de retaliação que dividem o governo federal e a federação, o Estudiantes desponta praticamente como o único clube de peso a abraçar abertamente as reformas propostas pela gestão de Milei. O próprio Verón chegou a sofrer duras suspensões do tribunal disciplinar da entidade máxima argentina após protestar publicamente contra o sistema centralizador da AFA, explicitando o preço político pago por desafiar o status quo do futebol local.
Para Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa de entretenimento norte-americana, a abertura para constituição das SADs na Argentina promoveria no país um conjunto de mudanças maior e mais célere do que vimos no Brasil. No entanto, com frutos sendo colhidos a médio e longo prazo.
“O equilíbrio no âmbito técnico e esportivo, demandaria alguns anos, e não seria atingido ainda nessa década. Na próxima, certamente. De imediato, teríamos uma significativa redução de interesse dos investidores qualificados, europeus e norte-americanos na aquisição das ações dos clubes brasileiros, com a concorrência dos argentinos por seus recursos”, disse, antes de completar:
“Ainda que o futebol no país vizinho tenha abdicado do calendário alinhado com o europeu, e tenham inchado sua primeira divisão, já vivenciaram um cenário ideal, o que nunca tivemos, por conta da forma como nossas federações estaduais “capturam” datas e dinheiro dos nossos principais clubes”, explicou.
Para além do alinhamento ideológico, a atuação nos bastidores já se reflete na prática por meio de uma profunda reestruturação interna. O clube vem promovendo a profissionalização de seus departamentos administrativos através de um ousado pré-acordo milionário de 30 anos firmado com o magnata norte-americano Foster Gillett, que prevê a injeção de 150 milhões de dólares destinados à modernização do Estádio UNO Jorge Luis Hirschi, à ampliação do centro de treinos e ao investimento no plantel e nas categorias de base.
O projeto adota uma engenharia jurídica de modelo híbrido de cogestão, na qual o Estudiantes não será vendido e manterá a sua identidade associativa nas mãos dos sócios, mas passará a partilhar receitas de bilheteira, prêmios de competições e transferências de atletas com o investidor.
Ao blindar o futebol de interferências políticas passionais e implementar auditorias e planejamentos corporativos típicos do mercado de capitais, o clube comandado por “La Brujita” Verón pretende pavimentar o caminho para a modernização financeira.
A reformulação do Estádio UNO, aliás, transformou o Estudiantes de La Plata num dos maiores casos de sucesso de engenharia financeira e modernização esportiva na América do Sul.
Após 14 anos de exílio e burocracia, o clube inaugurou em 2019 um conceito de “estádio vivo”, que funciona 365 dias por ano e gera receitas constantes, reduzindo drasticamente a dependência financeira dos dias de jogo.
O projeto, orçado em cerca de 45 milhões de dólares, foi financiado através de uma engenharia financeira saudável que uniu a venda de ativos, capitais próprios e patrocínios estratégicos, recorrendo a apenas 5 milhões de dólares de crédito bancário.
No plano institucional, o UNO posicionou o Estudiantes na vanguarda global ao tornar-se o primeiro estádio do mundo com certificação ambientalEDGE, atraindo marcas multinacionais associadas à tecnologia e à sustentabilidade, como a Telecom (Flow) e a Philips/Signify.
A nível comercial, o Estudiantes reconfigurou a exploração do seu espaço físico através do “Mercado Uno”, um vibrante polo gastronómico e comercial integrado na base da bancada principal que opera diariamente para o público em geral. Entre os principais destaques está o León Bar & Bistro, um restaurante premium com vista direta para o relvado nos dias sem jogo, além de escritórios corporativos arrendados e parques de estacionamento privativos.

“O Estudiantes mostra como os investimentos internacionais e o planejamento patrimonial podem transformar a estrutura de um clube. A modernização do Estádio UNO vai além da experiência nos dias de jogos: o espaço deixa de ser apenas um palco esportivo e passa a funcionar como um ativo estratégico para a geração de receitas e a sustentabilidade financeira da instituição”, destaca Heraldo Evans, diretor comercial da Recoma, empresa especializada em infraestrutura esportiva.
No plano desportivo e de lazer, o clube realizou uma concessão de longo prazo do seu ginásio polidesportivo para a rede Sport Club, garantindo um encaixe antecipado de 1 milhão de dólares para a amortização do projeto. A comercialização de ativos corporativos atingiu o seu expoente máximo com a construção de duas linhas verticais de camarotes VIP e assentos premium — geridos em parceria com a empresa Experiencia Fútbol, que adiantou cerca de 6 milhões de dólares ao clube —, esgotando os espaços através de contratos de direito de uso anual altamente lucrativos.
“Hoje, estádios e arenas precisam ir além do futebol. Espaços como camarotes e restaurantes têm potencial para se tornarem verdadeiros pontos turísticos. Funcionando durante o ano inteiro com shows, eventos, jogos e até experiências gastronômicas, a ideia é transformar o torcedor ocasional em um frequentador desses ambientes e atrair outros públicos”, afirma Leo Rizzo, CEO da Soccer Hospitality, empresa especializada em ambientes premium, que possui camarotes em doze estádios brasileiros.
Os impactos financeiros diretos desta transformação ficaram consolidados no encerramento do mais recente exercício fiscal do clube, onde o Estudiantes registou um expressivo superávit contável de 457 milhões de pesos e uma impressionante redução de 21,47% no seu passivo total.
Impulsionado pelo orgulho da nova casa, o clube viu a sua massa associativa disparar para a marca histórica de 63.002 sócios ativos, gerando um crescimento contínuo na arrecadação de quotas. Com um aumento de 95% nas receitas de publicidade e marketing, o Estudiantes conseguiu expandir os investimentos no seu plantel profissional e reduzir as suas dívidas operacionais, provando que a modernização patrimonial é o alicerce definitivo para o sucesso desportivo a longo prazo.
Por fimn, essa busca por novos rumos institucionais motivou um bombástico encontro recente e secreto no Estádio Monumental de Núñez entre Verón e o presidente do River Plate, Stefano Di Carlo. O objetivo central da reunião foi selar uma aliança política histórica e criar uma mesa de trabalho permanente para formular propostas conjuntas sobre os calendários, a renegociação de receitas de transmissão televisiva e a descentralização do poder político exercido por Tapia na AFA.
Embora o River Plate tenha reafirmado o seu compromisso tradicional com o modelo de associação civil sem fins lucrativos e não pretenda transformar-se em empresa, a diretoria “millonaria” partilha do profundo descontentamento do Estudiantes com os rumos organizativos e com a qualidade do futebol nacional.
Ao blindar o futebol de interferências políticas passionais e implementar auditorias e planejamentos de mercado típicos do mundo corporativo, o clube comandado por “La Brujita” Verón pretende criar um formato de gestão híbrido que garanta competitividade internacional a longo prazo.

