O que os cegos querem ver no próximo governo

O Brasil acabou de escolher quem vai governá-lo pelos próximos quatro anos, e há um grupo de brasileiros cuja esperança não depende do resultado da urna. São as pessoas cegas ou com baixa visão, e o que elas esperam do próximo presidente cabe em uma frase: que o aluno cego receba o livro didático em braille no mesmo dia em que o colega da carteira ao lado recebe o dele. Parece pouco, mas em 2026 o país não conseguiu cumprir.

A memória recente explica a cautela. As entidades que representam a pessoa com deficiência visual, entre elas a Abridef, alertaram com meses de antecedência que os editais do Programa Nacional do Livro e do Material Didático, o PNLD, estavam atrasados e que o ano letivo começaria sem o livro em braille. Foi o que aconteceu e, pela primeira vez em quatro décadas do programa, alunos cegos de todo o país voltaram às aulas sem o material. O governo reagiu com um investimento emergencial de R$ 27 milhões e a promessa de entrega imediata, mas o material chegou aos poucos, e o Ministério da Educação só declarou a distribuição concluída, com 16.652 exemplares, quando o ano letivo já passava da metade.

Para o Estado, a entrega estava feita, mas, para o aluno que precisava do livro no primeiro dia de aula, chegou tarde demais. Foi um ano árduo para quem precisou cobrar, semana após semana, um direito que já está na lei, e para os professores que adaptaram material por conta própria enquanto o livro não vinha.

Quando o Brasil fala em acessibilidade, costuma falar em Libras, rampas e piso tátil, e quase nunca na pessoa cega, e é no braille que a autonomia dela começa. Aprender a ler abre caminho para ir e vir pela cidade, pedir um prato pelo cardápio, conferir a bula do remédio e assinar uma escritura no cartório sem depender de terceiros