Vigiar os púlpitos é violar a liberdade religiosa

Há ideias que, em uma democracia constitucional, deveriam causar desconforto imediato antes mesmo de qualquer discussão sobre eficiência, metodologia ou tecnologia, e uma delas é a pretensão de monitorar cultos religiosos para identificar possíveis crimes ou irregularidades. Foi exatamente esse o contexto apresentado por Rodrigo Toniol, professor de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ao relatar, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, uma pesquisa realizada pelo grupo Passagens, da UFRJ, em parceria com a organização More in Common, na qual milhares de cultos e missas foram acompanhados, transcritos e analisados nas semanas anteriores ao primeiro turno das eleições com o objetivo de identificar referências políticas e eventuais ilícitos eleitorais.

O ponto que me parece mais importante não está em saber se o acompanhamento foi presencial, por vídeos transmitidos publicamente ou por meio de ferramentas automatizadas, porque essa distinção, embora possa ser juridicamente relevante em determinados contextos, não altera aquilo que considero essencial nesta discussão: a normalização da ideia de que o púlpito é um espaço a ser sistematicamente escrutinado para que se descubra o que eventualmente possa ser considerado ilícito. Pouco importa, nesse sentido, se o observador está sentado no último banco da igreja, diante de uma tela de computador ou utilizando inteligência artificial para transcrever milhares de horas de celebrações; o problema de fundo permanece o mesmo, pois alguém decidiu que sermões, homilias, prédicas e manifestações religiosas devem ser vasculhados com a finalidade de encontrar possíveis infrações.

Essa inversão de perspectiva deveria preocupar qualquer pessoa comprometida com as liberdades civis fundamentais, porque uma coisa é investigar um fato concreto, determinado e previamente denunciado, com observância do devido processo legal e das competências próprias das autoridades públicas; outra, inteiramente distinta, é submeter o exercício de uma liberdade fundamental, especialmente a primeira das liberdades, a uma lógica de monitoramento preventivo, partindo-se não de um ilícito conhecido, mas da suspeita de que ele possa estar escondido em algum lugar dentro da manifestação religiosa. Quando se aceita essa lógica, a liberdade deixa de ser o ponto de partida e passa a ser tratada como um campo a ser policiado.

É curioso, inclusive, que os próprios dados divulgados pela pesquisa caminhem em sentido contrário à imagem frequentemente construída de igrejas transformadas em máquinas eleitorais. Segundo o relato apresentado, manifestações classificadas como direcionamento político ou apoio a candidaturas apareceram em porcentual muito reduzido das celebrações analisadas, enquanto mensagens relacionadas à cidadania, ao voto consciente e à participação política responsável ocorreram com frequência significativamente maior. Em outras palavras, depois de milhares de horas de monitoramento, aquilo que se encontrou foi, em sua imensa maioria, exatamente o que se esperaria encontrar: padres celebrando missas, pastores pregando sermões, líderes religiosos ensinando sua fé e comunidades exercendo sua religião.