Em um momento em que entra em atrito com o presidente americano, Donald Trump, devido a decisões do republicano – como a de comprar diesel da Rússia – que Kiev considera que ajudam o ditador Vladimir Putin na guerra, a Ucrânia está mais exposta a ataques do Kremlin devido ao esgotamento dos seus estoques de mísseis dos sistemas de defesa aérea Patriot.
Na semana passada, uma fonte informada sobre o assunto disse à emissora americana CNN que “quase todos os mísseis balísticos dos últimos ataques não foram interceptados devido à falta de mísseis [interceptadores]”.
O jornal americano The Washington Post informou na terça-feira (20) que o governo Trump ainda não aprovou uma transferência de mísseis dos sistemas Patriot à Ucrânia.
Segundo uma autoridade americana e outras três fontes ouvidas pelo jornal, a decisão cabe ao secretário da Guerra dos EUA, Pete Hagseth, que não rejeitou oficialmente a transferência dos mísseis interceptadores para a Ucrânia, mas também não tomou as providências necessárias para autorizá-la.
Tais mísseis não seriam enviados pelos Estados Unidos, mas sim por outros países, o que exige uma aprovação específica por parte de Washington para repassar as armas, já que são de fabricação americana.
Segundo informações da imprensa internacional, Kiev suspeita que o governo Trump esteja atrasando deliberadamente a entrega de mísseis Patriot que já foram pagos. Nesta terça-feira, o republicano voltou a cobrar Zelensky para que aceite um acordo de paz com amplas concessões a Moscou.
Analistas apontam que a natureza dos ataques russos nos últimos meses e a proximidade do inverno no Hemisfério Norte indicam que Putin planeja uma ação decisiva para vencer o conflito.
“Os ucranianos estão com seus estoques de interceptadores Patriot e outros sistemas de defesa aérea em níveis baixos, o que dá aos mísseis e drones russos maiores chances de atingir, com mais eficácia, alvos por toda a Ucrânia — incluindo a infraestrutura necessária para manter o fornecimento de energia elétrica e aquecimento com a aproximação do inverno”, escreveu Ian Bremmer, colunista de relações internacionais da revista Time.
VEJA TAMBÉM:
-
Enviado de Trump se encontra com Putin e anuncia libertação de americano
-

A guerra dos drones mutantes: como a Rússia adapta armas do Irã para agredir a Ucrânia
Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), disse em entrevista à Gazeta do Povo que os russos conseguiram “apagar” Kiev durante vários momentos nas últimas semanas, “algo bastante impressionante”.
Percebendo que estão numa posição de força, com o esvaziamento dos estoques de capacidades antiaéreas da Ucrânia, os russos aproveitam para bombardear infraestruturas estratégicas, não somente as de energia, disse o analista.
“Já se registra um grande número de perdas de locomotivas e de ferrovias na Ucrânia. Isso é uma interdição de certa maneira, porque o trem não chega — e o trem é o meio que se tem hoje na Ucrânia para transportar as coisas, já que não se usa mais a aviação civil pelo risco —, e soma-se a isso o problema do bloqueio dos portos ucranianos pelos russos”, afirmou Moita.
O analista destacou que, diferentemente de 2022, primeiro ano da guerra e quando havia um bloqueio pesado pela Marinha russa no Mar Negro, “agora esse bloqueio é feito por mísseis de cruzeiro, mísseis balísticos e drones”.
“Hoje a Ucrânia tem um grande problema para exportar, por exemplo, gêneros agrícolas, que é uma pauta importante para o país”, disse Moita.
Em seu artigo, Ian Bremmer afirmou que as autoridades europeias precisam agir rapidamente. “O objetivo não é apenas ajudar Kiev a resistir aos ataques russos durante o próximo inverno, mas também proteger melhor sua própria infraestrutura física e cibernética. É preciso, ainda, aprimorar a coleta e o compartilhamento de informações de inteligência, elementos fundamentais para uma resposta ágil e contundente a novas investidas russas. E elas sabem que precisam ter essas preparações concluídas até o final deste ano”, disse o colunista.
Da parte da Ucrânia, Sandro Teixeira Moita ponderou que, diante da incapacidade dos europeus de abastecer militarmente Kiev na mesma velocidade com que a Rússia se rearma com recursos próprios e ajuda de aliados, como a Coreia do Norte, fechar um acordo “seria a melhor jogada neste momento, até mesmo para se reequipar, retreinar e criar novas forças”.
“Mas o grande problema é que os russos não sentem que estão num impasse ou que estão sendo derrotados. A visão russa é muito de vitória, e eles acham que estão conseguindo pressionar para colocar a Ucrânia numa situação ainda mais frágil para negociações após o inverno. Essa é a racionalidade russa”, alertou.

