São Tomás de Aquino contra a idolatria baseada na ciência

Hoje, a coluna traduz e publica um artigo do site The Imaginative Conservative, parceiro da Gazeta do Povo. Nele, o irmão dominicano Barnabas Maria Wilson, que também é engenheiro químico, mostra como o pensamento de São Tomás de Aquino é útil para evitarmos que a ciência moderna nos leve a cair em um certo tipo de idolatria que pode até ser diferente das idolatrias do passado no seu objetivo, mas que na essência é muito parecida.

Ciência, idolatria e a utilidade da criação

O cético e São Tomás

O leitor moderno, consciente do refinamento científico de nossa época, pode facilmente descartar o pensamento de São Tomás de Aquino. A medicina de seu tempo era rudimentar. Sua compreensão da biologia era excessivamente simplista. Sua explicação da física parece filosófica demais. E, no entanto, seus argumentos e princípios permanecem. Essa sabedoria perene, o verdadeiro tesouro que Tomás desejava transmitir a seus alunos, é precisamente aquilo que perdemos quando nos recusamos a lidar com seu pensamento. Mas, se pensarmos com Tomás, poderemos descobrir que seus argumentos têm uma relevância surpreendente. Tendo-o como mestre, encontraremos orientação para o trabalho intelectual de qualquer época.

Lendo o Gênesis

Um exemplo da sabedoria de Tomás pode ser encontrado em sua abordagem das estrelas. Na primeira parte da Suma Teológica, depois de tratar do próprio Deus, Tomás conduz seus alunos ao estudo das criaturas em sua relação com Deus. Ele apresenta o maravilhoso mundo que procede livremente de Deus pelo ato da criação. Tomás usa o primeiro capítulo do Gênesis como estrutura de sua exposição e, ao interpretar o quarto dia, volta-se para as estrelas – aquelas luzes que preenchem o firmamento.

Quando o relato da criação no Gênesis fala do surgimento das estrelas, acrescenta-se um elemento singular. Depois da fórmula habitual “faça-se”, Deus diz: “Que sirvam eles [os “luzeiros”] de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos,e resplande­çam no firmamento do céu para iluminar a terra” (Gn 1,14-15). Tomás, sempre atento à leitura das Escrituras, pergunta se a causa atribuída à “produção das luzes é razoável” (Suma Teológica, I, q. 70, art. 2). Ele sabe que há uma razão subjacente nas Escrituras para esse acréscimo, mas qual seria ela? Por que ressaltar que as estrelas “marcam o tempo” e “iluminam a terra”?