O Parque Nacional White Sands, no Novo México, pode não ser tão famoso quanto o Grand Canyon ou Yellowstone, mas talvez devesse ser.
Pode-se argumentar que nenhum outro lugar nas Américas oferece uma janela tão esclarecedora para a vida dos primeiros habitantes da região quanto suas dunas de gesso, repletas de revelações pré-históricas que estão mudando nossa compreensão da história da humanidade.
Apenas dois anos após White Sands ter sido elevada à categoria de parque nacional em 2019, esta extensão desértica de 712 quilômetros quadrados tornou-se o centro do mundo arqueológico, quando a descoberta de pegadas humanas fossilizadas foi divulgada.
A descoberta de 61 pegadas humanas impressas na lama, datadas de cerca de 21.000 a 23.000 anos atrás, segundo a datação por radiocarbono de camadas adjacentes de sementes de plantas, teve consequências revolucionárias para teorias há muito debatidas sobre quando os povos pré-históricos chegaram às Américas.
Até então, a visão predominante era de que os humanos chegaram à atual América do Norte há cerca de 13.000 a 16.000 anos, vindos da Ásia através da Beríngia, uma ponte terrestre agora submersa que outrora conectava os dois continentes.
As descobertas em White Sands recuaram drasticamente a cronologia, sugerindo que os humanos estiveram no continente durante o Último Máximo Glacial, um período entre 19.000 e 26.000 anos atrás, quando duas enormes camadas de gelo cobriam o terço norte da América do Norte.
A forma exata como essas pessoas chegaram continua sendo um tema de debate constante, com alguns cientistas argumentando nos últimos anos que elas navegaram pela costa da Ásia em pequenos barcos, também conhecida como teoria da migração costeira.
As pegadas também ofereceram evidências com implicações potencialmente importantes para nossa compreensão da relação dos humanos com a megafauna mais icônica da Grande Era do Gelo, desde os mamutes-columbianos, primos menos peludos das espécies lanosas, até os tigres-dentes-de-sabre.
Mas não fosse pela persistência de um indivíduo, a descoberta talvez nunca tivesse vindo à tona. David Bustos, gerente de recursos integrados de White Sands, avistou o que pareciam ser pegadas humanas antigas em 2009, com seus contornos gravados nas margens do Lago Otero, há muito seco, que se estendia pela área de dunas.
Espalhadas perto de pegadas de mamute, as marcas tinham todos os contornos de um pé humano, mas o então biólogo do Serviço Nacional de Parques lutava para se convencer de que as pegadas poderiam ser da mesma época, muito menos para convencer outros pesquisadores.
“Você olha para aquilo e pensa: ‘Não é possível. Será?'”, disse Bustos à jornalista Erica Hill, da CNN.
“As pessoas queriam ver fotos, disseram que provavelmente não eram pegadas humanas, provavelmente um camelo escorregando na lama e deixando uma pegada alongada. Isso continuou e eu deixei para lá.”

Mas não por muito tempo, pois novas pegadas encontradas um ano depois, novamente ao lado de rastros de mamute, levaram Bustos a buscar mais uma vez uma segunda opinião.
Mais uma vez, suas alegações caíram em ouvidos moucos. Embora as pegadas pudessem ser de origem humana, disseram-lhe que não era possível determinar com certeza se haviam sido feitas um, cem ou milhares de anos depois das pegadas do mamute.
No entanto, a confiança de Bustos crescia e seria finalmente recompensada por uma descoberta irrefutável em janeiro de 2016: pegadas de mamute diretamente sobre pegadas humanas, a indicação mais clara até então de que as duas espécies coexistiram.
Desde a década de 1960, proliferaram teorias de que os humanos teriam levado a megafauna à extinção logo após sua chegada às costas da América do Norte. No entanto, a sobreposição de pegadas sugeriu que os humanos conviveram com esses animais por 10.000 anos antes de seu desaparecimento, o que implica que, se as pessoas caçavam megafauna, essas práticas eram, pelo menos por um tempo, sustentáveis.
Agora era o telefone do biólogo que não parava de tocar, enquanto pesquisadores de todo o mundo viajavam para o Novo México para ver as descobertas em primeira mão. Antes que alguém pudesse dar uma olhada adequada, no entanto, fortes enchentes destruíram os rastros.

