O que se sabe sobre o acidente com avião de carga da Amazon em Miami

Pelo menos cinco pessoas morreram depois que uma aeronave de carga da Amazon ultrapassou a pista durante um pouso no Aeroporto Internacional de Miami na tarde de domingo (6), atingindo múltiplos veículos e lançando uma densa coluna de fumaça negra no ar ao pegar fogo.

Outras cinco pessoas ficaram feridas no acidente, disse o chefe do Corpo de Bombeiros de Miami, Raied “Ray” Jadallah, durante uma coletiva de imprensa no dia do acidente. Três estão em estado crítico e foram levadas a um centro de trauma, enquanto outras duas foram encaminhadas a um hospital local, afirmou.

Várias vítimas ficaram presas nos veículos atingidos pelo avião e precisaram ser retiradas, disse Jadallah. Não está claro se as vítimas que morreram estavam no avião ou em terra.

O avião, um Boeing 767-300 de carga, vinha de San Juan, Porto Rico, quando ultrapassou a pista após pousar em Miami por volta das 14h no horário local, informou a FAA  (Administração Federal de Aviação).

Não está claro por que o avião não conseguiu parar. Ele estava a quase 209 quilômetros por hora quando deixou a parte utilizável da pista, de acordo com dados do site de rastreamento Flightradar24. Uma análise do áudio do controle de tráfego aéreo pela CNN mostra que os pilotos não declararam emergência antes do pouso.

Mais de 60 “unidades chegaram ao local e encontraram um avião que havia pegado fogo como resultado deste acidente, com chamas intensas e fumaça visível”, diz uma publicação no X do Corpo de Bombeiros de Miami.

“Pessoal, o avião está pegando fogo. O avião está pegando fogo. Preparem-se”, disse um socorrista em áudio de despacho obtido pela Broadcastify.

Os socorristas informaram que os pilotos haviam sido retirados do avião e estavam recebendo atendimento. Suas condições são desconhecidas.

O Departamento do Xerife de Miami afirmou estar em processo de confirmação das identidades das vítimas fatais e havia estabelecido uma linha telefônica dedicada para informações às famílias.

O NTSB (Conselho Nacional de Segurança nos Transportes) e a FAA conduzirão investigações. Uma equipe de investigadores da FAA estava no local até a noite de domingo, segundo o prefeito da cidade, e investigadores do NTSB estavam a caminho.

“Estamos arrasados ao saber que cinco pessoas perderam suas vidas no incidente de hoje no Aeroporto Internacional de Miami”, disse Kelly Nantel, porta-voz da Amazon, em comunicado à CNN. “Nossas mais profundas condolências vão às famílias, entes queridos e a todos os afetados por essa perda devastadora.”

A Amazon informou que o avião era operado pela 21 Air e que “cooperará plenamente com qualquer investigação.”

A 21 Air é uma transportadora exclusivamente de carga com sede na Carolina do Norte, de acordo com seu site. Ela possui um centro de operações 24 horas por dia, 7 dias por semana em Miami, que despacha aviões para empresas como Amazon e DHL utilizando uma frota de aeronaves Boeing 767. De acordo com a empresa de análise de aviação Cirium, a 21 Air opera oito aviões Boeing 767 para a Amazon Air, a companhia aérea de carga do varejista.

Em comunicado divulgado no domingo, o CEO da 21 Air, Keith Winters, afirmou que a empresa também estava cooperando com as autoridades, acrescentando: “Estamos devastados com o acidente envolvendo uma de nossas aeronaves em Miami hoje. Nossas mais profundas condolências às famílias e entes queridos daqueles que perderam suas vidas.”

O incidente ocorreu durante o fim de semana do Dia do Trabalho, um período movimentado para a aviação. Mais de 450 voos de chegada e partida do aeroporto estavam atrasados ou cancelados até a noite de domingo, de acordo com o FlightAware.com, já que o acidente provocou uma paralisação em solo de aproximadamente 3 horas. Segundo a FAA, espera-se que os voos continuem atrasados até segunda-feira (7) devido à aeronave imobilizada na pista.

O avião Boeing com 32 anos de uso pousou na pista 30, que tem mais de 2,7 quilômetros de comprimento, de acordo com dados da FAA. As equipes de inspeção relataram que não foram encontradas peças ou destroços da aeronave na pista, mas o avião danificou equipamentos de navegação ao sair do pavimento.

O que dizem especialistas

David Soucie, analista de segurança da CNN e ex-inspetor de segurança da FAA, disse à CNN que os aviões normalmente pousam com o “nariz para cima”, mas o vídeo mostra que este chegou de forma mais nivelada. Ele também observou que a direção do vento mudou repentinamente antes de a aeronave pousar — “a 190 graus com rajadas de vento de até 26 nós, ou 48 quilômetros por hora” — introduzindo um “elemento de vento em cauda” na aeronave.

Quando um avião é apanhado por um vento em cauda, as rajadas de ar sopram por trás da aeronave na mesma direção em que ela está voando.

“Agora você tem um vento de cauda que empurra a aeronave para frente. Então você está ganhando velocidade em vez de perdê-la naquele momento”, acrescentou Soucie.

Os investigadores que trabalham para determinar a causa do incidente provavelmente analisarão quatro áreas diferentes: a pilotagem da aeronave, o aeródromo, o clima e as condições do avião, disse a analista de transportes da CNN Mary Schiavo.

“Agora, sabemos que não houve chamadas de Mayday antes do pouso — eles não informaram ao Controle de Tráfego Aéreo que tinham algum problema com a aeronave”, disse Schiavo. “Mas alguns desses problemas só seriam conhecidos no momento do toque.”

As pistas do Aeroporto Internacional de Miami não estão equipadas com Arrestor Beds, também conhecidos como EMAS (Sistema de Arresto de Material Engenheirado) — uma almofada de material compressível colocada no final da pista para impedir que uma aeronave ultrapasse os limites.

“Temos esses sistemas em todo os Estados Unidos, e eles existem pelo mundo todo”, disse Schiavo. “E para um aeroporto tão congestionado quanto Miami — com população ao redor, prédios, rodovias, entre outros — não ter nenhum desse sistema de segurança de ultrapassagem de pista é um pouco surpreendente.”

A CNN entrou em contato com a FAA e o aeroporto para obter comentários.

“Senti a casa tremer”

Um morador de Miami que vive a aproximadamente três milhas do aeroporto disse à afiliada da CNN WFOR que sentiu sua casa tremer durante o acidente aéreo.

Jose Sanchez inicialmente pensou que um caminhão havia explodido. “Mas a casa tremer — não era normal”, disse ele à WFOR.

Outro morador que vive perto do aeroporto disse que o acidente foi uma cena assustadora.

“Olhei e vi a cauda e havia muitos veículos de emergência se dirigindo nessa direção. É uma loucura”, disse o morador à afiliada da CNN WSVN.

Alguns passageiros que partiam do aeroporto de Miami remarcaram seus voos por medo de novos atrasos.

“Embarcamos — estávamos todos sentados no avião. 3:30 e fizeram um anúncio de que havia uma paralisação em solo e que um avião saiu da pista”, disse um viajante à WSVN.

“Ninguém vai sair tão cedo. Tudo está fechado e atrasado, então remarquei meu voo saindo de Orlando para terça-feira.”

A prefeita do Condado de Miami, Daniella Levine Cava, esteve no local no domingo à noite, onde recebeu um briefing de autoridades da FAA.

“Nossas equipes permanecem em estreita coordenação com nossos parceiros federais, focadas em cuidar dos afetados, apoiar nossos socorristas e manter nossa comunidade segura”, escreveu ela em uma publicação no X.

A aeronave de carga da Amazon Air era uma das mais de 250 que o gigante do comércio eletrônico opera diariamente para enviar pacotes aos clientes.

A Amazon Air opera uma frota de mais de 100 aeronaves de carga, incluindo o Boeing 737 e 767 e o Airbus A330. As cargas podem incluir de tudo, desde mercadorias em geral, como pedidos de buquês de flores de uma empresa, até gelo seco, medicamentos perecíveis, encomendas, peixes, frutas e outros produtos.

Excursões de pista — quando aviões saem da pista — são o incidente número 1 envolvendo aeronaves em todo o mundo, de acordo com dados da International Air Transport Association.

Sarah Dewberry, Amanda Jackson, Nayeli Jaramillo-Plata e Auzinea Bacon, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

 

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