Numa das passagens mais famosas de seu diário, Kafka (o escritor, não a barata) registra assim os acontecimentos do dia 2 de agosto de 1914: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. — À tarde, natação”. Foi disso que me lembrei ontem, ao dar um mergulho na piscina muito gelada. Só um mergulho. Para sentir a água ferindo meu corpo como uma espécie de facada purificadora. Um tapa fluido na cara, como se trilhões de moléculas me gritassem em uníssono que a história, aquela que muita gente escreve com agá maiúsculo, mas eu me recuso, não está nem aí para a minha tristeza.
E não está mesmo. Aliás, a história não está nem aí para minha tristeza nem para minha felicidade – nos dias felizes que, felizmente, me são abundantes. Hoje mesmo. Se você parar para pensar, há mísseis cruzando os céus da Ucrânia neste exato momento. Na África, alguém acaba de ser degolado. Um burocrata do Partido Comunista Chinês provavelmente tomou uma decisão que afetará a vida de milhões de pessoas. No Oriente Médio um jovem aprende a lidar com explosivos. Agora mesmo o Alexandre de Moraes provavelmente está tramando alguma. E enquanto isso estou aqui, escrevendo; e você está aí, lendo. Enxerga a beleza disso?
Loucura
A anotação no diário de Kafka é equivocadamente interpretada como um elogio da alienação. Aquela coisa de “o Brasil nesta situação e você aí, almoçando” – e que virou meme. Mas não é nada disso. Para mim, que não sou dono da razão, mas às vezes a pego emprestada, a anotação é um registro perfeito da nossa impotência diante das chamadas forças históricas. Em sua simplicidade extrema, é um testemunho de que, em meio ao caos e à balbúrdia das redes sociais (que não existiam na época de Kafka; eu sei; dããã), só a atenção detida ao prosaico nos salva da loucura. Inclusive da loucura de achar que temos alguma influência real nos destinos do país.
Kafka não tinha controle sobre a Primeira Guerra Mundial. Muito menos sobre os efeitos do conflito no seu dia a dia. Naquele 2 de agosto de 1914, tudo o que ele pôde fazer foi tomar conhecimento de que um morticínio tinha começado. Registrar isso. E, depois, nadar. O registro serve para nós, no momento em que testemunhamos a história contrariando nossa vontade. A minha, pelo menos. Tá. Lula venceu a eleição. O futuro do Brasil me parece pouco auspicioso. Bem pouco. Mas tenho a família e o trabalho e os amigos. A Catota. Tenho a coleção de selos, o livro novo que chegou e o bar. Tenho tudo aquilo que o Lula pode atrapalhar, mas não impedir. Tenho a vida. E se você chegou até aqui pensando “por enquanto”, é isso mesmo. É apenas no “por enquanto” que a gente tem a oportunidade de ser feliz.

