Durante mais de dois séculos, uma regra orientou praticamente toda a evolução econômica; sempre que uma grande revolução tecnológica destruía empregos, outra onda de atividades surgiu para substituí-los. A Revolução Industrial, a eletrificação, a mecanização do campo e a informática seguiram esse mesmo padrão. A produtividade aumentou, profissões desapareceram, mas o trabalho encontrou novos caminhos. E se essa regra estiver prestes a deixar de funcionar?
A história oferece inúmeros exemplos. O cocheiro perdeu espaço para a indústria automobilística. O acendedor de lampiões foi substituído pela eletrificação, que criou uma vasta cadeia ligada à geração e distribuição de energia. Entre as décadas de 1980 e 1990, a informatização dos escritórios eliminou milhares de funções, como datilógrafos, digitadores, operadores de telex e arquivistas.
Muitos acreditavam que os computadores provocariam uma crise permanente de desemprego. Entretanto, ocorreu o oposto. A mesma revolução criou milhões de empregos em desenvolvimento de software, suporte técnico, redes, telecomunicações, internet e serviços digitais. Em todos esses episódios, a tecnologia aumentou a produtividade sem eliminar a necessidade do trabalho humano. O trabalho apenas migrou para novas atividades.
Esse mecanismo de compensação tornou-se tão recorrente que passou a ser tratado quase como uma lei da evolução econômica. O crescimento da produção e o crescimento do emprego permaneceram historicamente conectados, ainda que nem sempre na mesma velocidade. Minha hipótese é que essa relação pode estar se aproximando de um ponto de inflexão e piora.
A questão central não é saber se novas profissões continuarão surgindo. Elas certamente surgirão. A verdadeira pergunta é outra: serão capazes de crescer na mesma velocidade com que Inteligência Artificial e robótica passam a substituir atividades humanas?
Ao longo de toda a Revolução Industrial, o capital dependeu do trabalho humano para expandir sua capacidade produtiva. Máquinas aumentavam a produtividade, mas continuavam exigindo pessoas para operá-las, mantê-las, projetá-las e aperfeiçoá-las. Mesmo quando uma profissão desaparecia, outra surgia para atender às novas demandas geradas pelo próprio avanço tecnológico.
A Inteligência Artificial e a robótica podem alterar essa lógica. Diferentemente das revoluções anteriores, elas não substituem apenas força física, mas também atividades intelectuais. Profissionais do direito, tecnologia, finanças, comunicação, saúde e criação de conteúdo já convivem com sistemas capazes de executar parte crescente de suas funções, enquanto robôs expandem sua presença em indústrias, hospitais, centros logísticos e serviços.
Essa percepção não é apenas intuitiva. Estima-se que aproximadamente 60% dos empregos nas economias avançadas poderão ser impactados pela Inteligência Artificial ao longo das próximas décadas, segundo o Fundo Monetário Internacional. O Goldman Sachs estima ainda que cerca de 300 milhões de empregos em tempo integral estejam expostos, em maior ou menor grau, à automação proporcionada pela Inteligência Artificial generativa.
Entretanto, a questão central não é saber se novas profissões continuarão surgindo. Elas certamente surgirão. A verdadeira pergunta é outra: serão capazes de crescer na mesma velocidade com que Inteligência Artificial e robótica passam a substituir atividades humanas?
As tecnologias atuais possuem uma característica inédita. São extremamente intensivas em conhecimento e capital, mas relativamente pouco intensivas em mão de obra. Uma pequena equipe pode desenvolver uma plataforma utilizada por centenas de milhões de pessoas. Uma única empresa pode substituir atividades anteriormente desempenhadas por milhares de organizações menores.
Além disso, pela primeira vez, a própria inovação começa a participar da produção de nova inovação. Sistemas de Inteligência Artificial escrevem código, auxiliam na criação de novos modelos, automatizam testes e aceleram o desenvolvimento de tecnologias ainda mais sofisticadas. Robôs passam a fabricar componentes utilizados na construção de novos robôs.
Estudos do Goldman Sachs sugerem ainda que a Inteligência Artificial poderá elevar a produtividade das economias desenvolvidas em aproximadamente 15% ao longo da próxima década. Se esse cenário se confirmar, parte relevante do crescimento econômico poderá ocorrer sem expansão proporcional da força de trabalho.
Para explicar esse possível rompimento, proponho a Hipótese da Emancipação do Capital: a ideia de que a Inteligência Artificial e a robótica podem inaugurar um estágio em que o crescimento do capital se torna progressivamente menos dependente da expansão do trabalho humano.
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A hipótese não afirma que o trabalho desaparecerá, nem que novas profissões deixarão de existir. Ela propõe que a relação histórica entre crescimento econômico e expansão do emprego poderá deixar de funcionar da mesma maneira que funcionou desde a Revolução Industrial. O foco deixa de ser apenas a substituição de trabalhadores e passa a ser a transformação da própria dinâmica de acumulação de capital.
Essa perspectiva também ajuda a interpretar fenômenos observados nas últimas décadas, como a redução gradual da participação do trabalho na renda em diversas economias desenvolvidas e a crescente concentração de riqueza em empresas intensivas em tecnologia, dados e propriedade intelectual.
O Fórum Econômico Mundial projeta que milhões de empregos serão transformados até o final desta década, ao mesmo tempo em que novas ocupações surgirão. A Hipótese da Emancipação do Capital não nega essa possibilidade. Ela questiona se a velocidade de criação dessas novas funções continuará suficiente para compensar a velocidade da substituição promovida pela Inteligência Artificial e pela robótica.
Caso essa hipótese se confirme, parte dos pressupostos que orientaram o pensamento econômico nos últimos dois séculos precisará ser revisitada. A destruição criativa continuará produzindo inovação. Entretanto, talvez deixe de gerar novos mercados capazes de absorver integralmente a mão de obra deslocada. O desemprego tecnológico poderá deixar de representar apenas uma fase transitória de adaptação para tornar-se uma característica estrutural de determinados setores.
As consequências ultrapassam a esfera econômica. Elas alcançam os sistemas previdenciários, os modelos tributários, a distribuição de renda, o consumo, a estabilidade política e o próprio papel do trabalho como principal mecanismo de inclusão social. Nada disso representa um argumento contra a Inteligência Artificial ou contra a robótica.
Ao contrário, essas tecnologias possuem enorme potencial para acelerar descobertas científicas, reduzir custos e melhorar significativamente a qualidade de vida. O desafio está em adaptar instituições econômicas concebidas para uma realidade em que a geração de riqueza dependia fundamentalmente do trabalho humano.
Se essa hipótese estiver correta, a maior questão econômica do século XXI já não será quais profissões desaparecerão, mas como distribuir prosperidade quando o crescimento da riqueza deixar de depender, como sempre dependeu, da expansão do trabalho humano.
Alexandre Nigri, CEO do Grupo Maxinvest, é economista e mestre em Engenharia de Produção.

