Um pequeno pedaço de pergaminho, marcado pelo tempo e com manchas de água, passou décadas entre manuscritos antigos de uma biblioteca na Holanda sem chamar atenção especial. O fragmento, que mede apenas 6,6 por 7,7 centímetros, parecia ser um texto danificado do século 7. Até que um pesquisador reconheceu nas pequenas letras em grego palavras associadas à poesia de Homero.
O fragmento pertence a uma cópia da “Odisseia” produzida entre os séculos 3 e 4 d.C., há cerca de 1.700 anos, e preserva versos do Livro 12 da epopeia. A identificação foi feita pelo pesquisador Mark de Kreij, da Radboud University, durante um projeto dedicado ao estudo de manuscritos antigos da Biblioteca da Universidade de Utrecht.
A descoberta ocorreu em 2024, mas só foi divulgada pela Universidade de Utrecht em setembro de 2026. Segundo a instituição, existem atualmente cerca de 30 fragmentos semelhantes da “Odisseia” conhecidos no mundo.
Como o fragmento da “Odisseia” passou despercebido por décadas?
O pedaço de pergaminho fazia parte de uma coleção de manuscritos adquirida pela Universidade de Utrecht, na Holanda, em meados do século 20, dos herdeiros do estudioso alemão Carl Schmidt. Entre textos em copta, grego e outros materiais ligados ao Egito, estava o pequeno fragmento, danificado e descolorido, que havia sido classificado como um documento do século 7.
Ao analisar a coleção, o pesquisador Mark de Kreij identificou palavras relacionadas aos poemas atribuídos a Homero e, após comparar os versos, descobriu que o trecho pertencia ao Livro 12 da “Odisseia”.
Os pesquisadores acreditam que o fragmento tenha feito parte de um códice produzido no Egito por volta de 300 d.C., provavelmente uma edição compacta da obra, com dimensões próximas às de um Kindle. A origem mais provável é a região do oásis de Faium. Como o trecho estava aproximadamente no meio do livro e possui escrita nos dois lados, as páginas ao redor podem ter contribuído para protegê-lo ao longo dos séculos.
O que os versos de 1.700 anos revelam?
O trecho pertence ao Livro 12 da “Odisseia” e registra um dos momentos decisivos da viagem de Odisseu. Na passagem, o herói e seus companheiros chegam à ilha onde ficam os rebanhos sagrados de Hélio, deus do Sol.
O grupo havia sido alertado para não tocar nos animais, mas, depois de ficar sem comida, os companheiros de Odisseu desobedecem e matam parte do gado para se alimentar. Os versos preservados no fragmento registram o momento em que Hélio descobre o que aconteceu e pede a Zeus que puna os responsáveis.
A consequência aparece pouco depois na narrativa. Uma tempestade destrói a embarcação e mata os companheiros de Odisseu, deixando o herói como único sobrevivente. O episódio marca uma das últimas etapas de sua longa viagem antes do retorno a Ítaca.
Além de preservar parte dessa passagem, o fragmento ajuda a mostrar que a “Odisseia” continuava sendo copiada e lida séculos depois de sua composição. Para os pesquisadores, o achado também oferece uma evidência da circulação da literatura grega no Egito durante a Antiguidade.
O que passou décadas guardado como um pequeno pedaço de pergaminho acabou, assim, revelando alguns versos de uma obra que atravessou mais de dois milênios e continua sendo lida até hoje.

