Defender reeleição de Lula em nome da independência entre poderes é falácia

Após a vitória significativa de candidatos conservadores e de direita nas eleições para o Senado e para a Câmara dos Deputados, um argumento destinado a convencer indecisos surgiu na boca dos apoiadores do presidente Lula, candidato à reeleição. Segundo esses apoiadores, com maioria no Congresso, Flávio Bolsonaro teria o poder para implantar sem obstáculos a sua plataforma – e o argumento deixa subentendido que isso seria um risco enorme para o país –, enquanto Lula seria obrigado a negociar, a moderar suas posições e a fazer concessões. É um raciocínio duplamente falso: porque a experiência dos governos lulistas mostra o contrário, mas especialmente porque ele reflete uma concepção completamente distorcida (e, por que não dizer, profundamente cética) da democracia.

Lula, por mais que ele diga (e outros digam dele) o contrário, nunca foi um democrata, e jamais soube lidar com um Congresso que não lhe fosse subserviente. Nos seus dois primeiros mandatos, a solução encontrada pelo petista foi comprar apoio parlamentar – assim nasceram o mensalão e o petrolão. No terceiro mandato, toda derrota importante sofrida por Lula no Congresso terminou no Supremo: “se eu não for ao STF, não governo mais o país”, disse o petista em meados de 2025, comentando a ação em que o Planalto pedia ao Supremo que derrubasse o decreto legislativo que cancelou um aumento ilegal no IOF. O mesmo ocorreu em relação às nomeações políticas para estatais, ao marco temporal, à desoneração da folha de pagamento, à Lei da Dosimetria: derrotado no Legislativo, o Executivo imediatamente buscava o Judiciário. Quem realmente acredita que em um eventual quarto mandato de Lula seria diferente?

Um voto bem dado pelo Brasil também é um voto de confiança na própria democracia e na possibilidade de vermos governantes trabalhando em conjunto pelo bem comum

Mas, falsidade factual sobre um hipotético “Lula conciliador” à parte, toda a construção que defende como única alternativa possível, no atual momento brasileiro, um Executivo que puxe para a esquerda e se contraponha a um Legislativo que puxa para a direita traz embutida uma ideia muito equivocada sobre a democracia, como se ela só fosse possível com poderes eleitos pelo povo que fossem antagônicos entre si. A julgar por esse argumento, um alinhamento ideológico entre chefe de governo e parlamento seria necessariamente um perigo, ou algo até antidemocrático. Ora, isso é completamente ilógico e facilmente refutável observando-se a realidade de várias democracias mundo afora.