Colapso no ensino de engenharia civil atrasa o Brasil em 50 anos

Há 30 anos, eu afirmei, nas páginas dos jornais, que o ensino de engenharia civil no Brasil estava atrasado em meio século. Fui taxado, à época, de exagerado. Hoje, tenho a triste convicção de que fui, na verdade, condescendente. O que eu descrevi como acomodação pedagógica transformou-se, sob o peso de diretrizes governamentais equivocadas, em um colapso prático que já se paga com fissuras, recalques e responsabilidades técnicas mal assumidas. O que vejo hoje em canteiros, salas de aula e bancas de TCC é que a distância entre o que se ensina e o que se constrói só aumentou.

A raiz do problema, a meu ver, tem duas frentes que se reforçam mutuamente.

A primeira é curricular. Nas últimas décadas, políticas educacionais reduziram progressivamente a carga horária mínima dos cursos de engenharia. Disciplinas que sustentam a responsabilidade civil do profissional, como cálculo aplicado, mecânica dos solos, patologia das estruturas, vivência de canteiro, foram encolhidas para caber em grades cada vez mais enxutas. Eu diria que se ensina um resumo apressado da engenharia.

A segunda frente é a da seleção docente. O MEC passou a exigir, de forma quase religiosa, titulação de mestrado e doutorado em regime de dedicação integral, e isso, tomado isoladamente, não seria um problema. O problema é que essa exigência varreu para fora da sala de aula a experiência prática de mercado. Criou-se o que eu chamo, há anos, de “professor de livro”: um profissional competente na produção de artigos, mas que raramente assinou uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), geriu o risco de uma contenção sob chuva ou tomou uma decisão de obra sob pressão de prazo e de vidas humanas em jogo.