As redes sociais transformaram todo mundo em analista político

“Fica muito difícil para um homem defender alguma coisa da qual ele está inteiramente convencido. E comparativamente fácil quando se está convencido em parte.” (Chesterton)

A frase em epígrafe, retirada do inescapável Ortodoxia, de G.K. Chesterton, é um retrato exato do que vivemos hoje. No último fim de semana estive em casa de parentes e uma tia falava, com certeza apodítica, sobre as eleições. Não só: falava sobre política e tudo aquilo que só não vê quem não quer. Lula, Jair e Flávio Bolsonaro, urnas eletrônicas, STF e uma leitura panorâmica de como as coisas realmente funcionam no país. Para ela, que é crente como eu – extrapolando a análise política e abrindo os olhos espirituais –, Lula é a personificação do Anticristo e Jair Bolsonaro teria sido o muro de contenção espiritual que represaria a Grande Tribulação. Claro, se Lula não tivesse, suspeitissimamente, vencido as eleições.

O curioso disso tudo é que essa respeitável senhora, até pouco mais de cinco anos atrás, jamais tinha aberto a boca para falar de política e jamais tinha nem sequer prestado atenção no assunto. Ela disse, inclusive, que seu voto era orientado. Ela perguntava ao marido: “em quem você vai votar?” Ele respondia e ela, sem nem saber quem era o candidato, ia lá e votava. Até o Grande Despertar, nos idos de 2020, com toda a celeuma que envolveu a pandemia, política era para ela uma barafunda interminável e desinteressante.

As bolhas cognitivas cerraram as portas do diálogo, instauraram a polarização e revestiram cada microcosmo de certezas absolutas