Inaugurada em 28 de outubro de 1886, a Estátua da Liberdade, na ilha de Manhattan, é frequentemente descrita como “um presente da França aos Estados Unidos”. Seu nome oficial é “A Liberdade Iluminando o Mundo” – mas seu título original, “Egito Carregando a Luz até a Ásia”, dá pistas de que a história não é bem como dizem.
Hoje símbolo dos valores ocidentais e da relevância cultural dos Estados Unidos, o gigantesco monumento começou como imagem de uma serva muçulmana de véu, desenhada para decorar a entrada do Canal de Suez no Porto de Said. O motivo da transformação, dizem os historiadores, foi mais monetário do que ideológico.
Inspiração no Egito
Um escultor francês em visita ao Egito em 1855 ficou impressionado pelas gigantescas tumbas com estruturas de humanos e animais colossais que adornavam o deserto. As estátuas de Ramsés II sentadas na fachada de seu templo medem 30 metros; no templo de Hathor e Nefertari estão seis figuras de 10 metros de altura.
Nasceu ali a ambição de Frédéric-Auguste Bartholdi de construir um monumento de escala impressionante, simbolizando algo tão poderoso quanto os antigos líderes egípcios. A abertura do Canal de Suez, prevista para acontecer nos anos seguintes, pareceu a oportunidade perfeita para seu projeto.
Bartholdi começou a desenvolver uma figura inicialmente chamada “Libertas”, representando uma jovem camponesa egípcia trajando um véu. A composição, com o pedestal, seria chamada “Egito Carregando a Luz até a Ásia”, representando a conexão pelo Suez, e mediria em torno de 40 metros.
O livro “The Statue of Liberty” (2004), de Barry Moreno, mostra a evolução da figura em miniaturas esculpidas pelo artista. A ideia final inclui um pedestal com aparência similar à do farol (ou Pharos) de Alexandria; a mão direita erguida empunhando uma lanterna em direção ao canal e a mão esquerda livre, parcialmente escondida pelo robe.
Edward Berenson, no livro “Statue of Liberty: A Transatlantic Story” (2012), revela o significado do design. A proposta era elevar uma “mulher fellah, ou camponesa árabe”, para um status de “deusa colossal”. Bartholdi teria apresentado a figura e o conceito ao construtor do Canal de Suez, Ferdinand de Lesseps, e ao Quediva Isma’il Pasha.
“Frédéric-Auguste Bartholdi estava certo de que Lesseps abraçaria a ideia. Para sua grande decepção, tanto Lesseps quanto o Quediva declinaram. A estátua era simplesmente muito cara”, escreve Zachary Karabell no livro “Parting the Desert: The creation of the Suez Canal” (2003).
Recalculando a rota
O projeto ficou em pausa durante a Guerra Franco-Prussiana até que, em 1865, o escultor conheceu um historiador francês que ensinava sobre democracia e apoiava o movimento abolicionista nos Estados Unidos. Foi ele quem sugeriu mudar a temática da estátua para um sinal de “amizade” entre a nação francesa e os americanos.
Munido de um novo conceito, Bartholdi foi aos Estados Unidos em 1871 para buscar um novo comprador. Segundo o livro “Liberty’s Torch”, de Elizabeth Mitchell, o artista escreveu em seu diário que considerou locais como o Prospect Park em Brooklyn e o Central Park para posicionar o monumento, mas acabou escolhendo a Liberty Island em Manhattan.
Distanciando-se da narrativa popular, Mitchell afirma que a estátua não foi um presente do governo francês, e sim financiada por doadores privados de ambos os países. No fim, o pedestal foi pago pelos americanos, enquanto a estátua em si ficou por conta dos europeus.
A autora diz que, sem o espírito de vendedor e as diversas estratégias de arrecadação aplicadas por Bartholdi, não haveria uma Estátua da Liberdade hoje. E não eram todos os americanos que a queriam; uma frase popular do escritor Mark Twain resume a oposição: “A que nos interessa uma estátua da liberdade, quando temos a coisa própria em seu esplendor mais selvagem?”
Twain havia sido convidado a doar e contribuir com obras de seu acervo pessoal para um evento do “Fundo para o Pedestal de Bartholdi” em 1883. Ele enviou uma contribuição financeira junto a uma carta propondo outra figura: “E se a sua estátua representar [a Liberdade] velha, curvada, vestida com trapos, triste e envergonhada pelos 6 mil anos de insultos e humilhação, implorando a Deus em nossa porta por um pão velho e uma hora de descanso? […] Este é o aspecto dela do qual devemos ser lembrados, para nunca esquecê-lo.”
Aos poucos, o projeto foi ganhando mais doadores e apoio popular. O dia 28 de outubro de 1886, inauguração da estátua, foi feriado na cidade de Nova York. Atualmente, o significado da estátua é mais associado a outro grande nome da literatura americana: Emma Lazarus, autora do poema “The New Colossus”.

