Norte-americanos costumam dizer que precisam de uma superestrela para se apaixonar por um esporte, e por anos o futebol ficou devendo isso aos Estados Unidos.
O país teve nomes como Clint Dempsey no passado, um jogador competente na Premier League, mas sem chegar ao nível de superstar. Depois veio Christian Pulisic, apelidado de “Capitão América”, talvez um pouco melhor, mas com dificuldades de constância.
Agora, porém, após os dias memoráveis da Copa do Mundo em solo americano, os EUA têm uma nova estrela desabrochando: Cavan Sullivan, de apenas 17 anos.
O jovem, natural da Filadélfia, já estava havia tempos no radar dos apaixonados por futebol, desde que estreou na Major League Soccer (MLS) pelo Philadelphia Union com apenas 14 anos.
Sullivan é aguardado no Manchester City a partir dos 18 anos
Na sequência, veio um contrato recorde com o clube da própria cidade natal, além de um acordo já noticiado com o Manchester City, gigante da Premier League, para assiná-lo quando completar 18 anos.
Agora, a apenas um ano dessa possível transferência, o meio campista vem chamando atenção também no nível sênior e desponta como titular da seleção principal dos Estados Unidos.
Tudo indica que todo o potencial projetado para ele finalmente começa a se concretizar. A expectativa em torno de Sullivan existe desde quando ele era ainda mais jovem do que é hoje, e não é difícil entender o motivo.
O meia ofensivo, que pode atuar centralizado ou partindo do lado direito, é espetáculo garantido quando tem a bola nos pés.
Criatividade é o principal diferencial do jovem talento
Em termos técnicos, seus fundamentos já são de altíssimo nível. A bola gruda no pé de Sullivan quando ele está com a posse, e ele tem aquela movimentação explosiva que assusta zagueiros. É muito mais ágil que a maioria, capaz de disparar em qualquer direção para escapar de marcações.
Mas é a criatividade que o diferencia de outros jovens em ascensão no futebol americano. Quando a bola está nos pés dele, existe a sensação de que qualquer coisa pode acontecer.
Há vídeos de treinos circulando na internet com Sullivan produzindo dribles e jogadas que ainda nem têm nome. É o tipo de talento que enche estádios e já chamou a atenção do técnico da seleção americana, Mauricio Pochettino, logo no início de um novo ciclo rumo à Copa do Mundo.
Sullivan estreou pela seleção principal dos EUA no sábado
O jovem, que vem brilhando pelo Union com sete gols e 12 assistências na MLS nesta temporada, foi convocado para seu primeiro período com a seleção principal neste mês e estreou pela equipe adulta na goleada por 4 a 1 sobre o Peru, no sábado (26).
Sullivan foi escalado como titular na partida, demonstrando o quanto Pochettino confia no jovem talento, que completou 17 anos nessa segunda feira (28).
“Estou muito feliz com a atuação dele, me sinto muito orgulhoso”, disse Pochettino após o jogo. “Aos 16 anos, atuando, brigando e jogando com personalidade, com caráter.”
Formação em ambiente familiar apaixonado por futebol
Esse caráter não é acaso: é fruto da criação em uma família da Filadélfia obcecada por futebol. Os dois pais de Sullivan jogaram em nível universitário, e o caçula de quatro irmãos seguiu os passos dos três mais velhos, todos praticantes do esporte.
O irmão de Cavan, Quinn, também é jogador profissional no mesmo clube, e os dois costumam atuar juntos pelo Union nesta temporada. Mas foi no clube da infância, o FC Delco, nos arredores da Filadélfia, que Sullivan deu os primeiros passos como futura promessa.
Rob Elliot, diretor geral do FC Delco, viu todos os irmãos Sullivan passarem pelas categorias de base ao longo dos anos e conhece a família há bastante tempo. Para ele, porém, ficou claro desde cedo que o caçula tinha algo a mais.

Diretor de clube da infância relembra talento precoce
“O Cavan devia ter uns nove anos, talvez algo assim, mas mesmo naquela época já era um talento especial”, contou Elliot à CNN.
“De vez em quando, algumas dessas crianças que aparecem simplesmente são construídas de um jeito diferente, sabe? A mentalidade delas, o foco no que fazem, é simplesmente diferente.”
Segundo Elliot, Sullivan começou jogando no mesmo time que os irmãos, dois anos mais velhos, mas mesmo assim conseguia se destacar apesar de ser bem mais novo que companheiros e adversários.
Mentalidade destemida chamava atenção desde cedo
Foi justamente a mentalidade do caçula dos Sullivan que mais chamou a atenção de Elliot naqueles primeiros anos, uma postura de “olha só o que eu vou fazer” que não vinha de arrogância, mas de trabalho duro e perseverança.
Ele se lembra de ter pedido para Sullivan escrever seus objetivos para o futuro. “Vencer a Copa do Mundo pelo FC Delco”, escreveu o garoto na época. E embora isso não seja exatamente possível, uma carreira repleta de momentos de brilho não é nenhum exagero para um jogador com tanto talento e potencial.
“Ele simplesmente não tinha medo de nada. Não importava o que você colocasse na frente dele, ele ia atacar aquilo”, acrescenta Elliot.
Estreia pela seleção reforçou fama de destemido
“De certa forma, você não sabe de nada mesmo nessa idade, mas você bota um desafio na frente dele, e ele vai descobrir um jeito de enfrentar aquele desafio.”
Isso ficou evidente no fim de semana, quando Sullivan estreou pela seleção principal dos Estados Unidos. Mesmo sem registrar gol ou assistência em pouco mais de uma hora em campo, o jovem nunca teve medo de receber a bola e tentar fazer alguma coisa acontecer.
Em determinado momento, ele recebeu cartão amarelo por uma entrada atrasada no goleiro peruano, lance que fez jogadores adversários protestarem bem perto do seu rosto.
A resposta de Sullivan? Se afastar calmamente da confusão, sem parecer nem um pouco abalado. Essa reação diz muito sobre o tipo de jogador em que ele vai se transformar, um traço de personalidade que o torna um pouco mais especial do que a leva de outros jovens surgindo no sistema americano atualmente.
Postura competitiva já era visível na infância
Essa atitude também soou muito familiar para Elliot. “Eu me lembro dele jogando contra um garoto dois anos mais velho, provavelmente uns 30 centímetros mais alto, e os dois se envolveram em uma dividida forte”, relembra Elliot, citando um momento em que percebeu que Sullivan estava destinado a grandes coisas.
“Esse garoto provavelmente pesava uns 14 a 18 quilos a mais que ele, mas o Cavan não ligava. Ele foi com tudo na dividida, se levantou e ficou parado em cima do garoto, como quem diz: ‘Não mexe comigo’.”
“Ele é muito competitivo, mas sabe onde é o limite, porque é um garoto muito inteligente, simplesmente não recua diante de nada.”
Clube elogia forma como carreira vem sendo conduzida
É incrível pensar que Elliot conheceu Sullivan antes mesmo de ele se tornar adolescente. E, ainda assim, menos de cinco anos depois, o garoto já estreava na MLS.
É uma trajetória rápida, que pode trazer armadilhas, já que muitas jovens promessas foram colocadas em um pedestal e não conseguiram corresponder a essa expectativa, especialmente nos Estados Unidos, como o histórica caso de Freddy Adu.
Mas Elliot elogia bastante a forma como o Philadelphia Union vem conduzindo o jovem desde que ele deixou o FC Delco para integrar a base do clube da MLS, em 2020.
Sullivan, por exemplo, nunca esqueceu suas origens e continua voltando para assistir aos jogos do time da infância mesmo depois de seguir carreira, chegando a participar de treinos ao lado dos antigos companheiros.
“Ele é viciado em futebol”, diz dirigente sobre Sullivan
“Ele é um viciado em futebol”, diz Elliot, rindo.
“Mas continua sendo um garoto com os pés no chão. Obviamente, ele precisa lidar com muita coisa que garotos de 17 anos normalmente não precisam lidar, né? Mas ele foi bem criado, os pais dele fizeram um ótimo trabalho, e o Union e todo mundo ao redor dele também têm feito um bom trabalho em mantê-lo fiel a quem ele é.”
“Não acho que isso vá mudar nele. Sabe, ele ama jogar”, completa o dirigente.
Sullivan pode ganhar outra chance de brilhar pela seleção, nesta terça feira (29), quando os Estados Unidos enfrentam o Chile em amistoso.
E, à medida que seu nome ganha ainda mais projeção e as expectativas aumentam, fica a sensação de que esse jovem talento precoce ainda tem muito espaço para evoluir. Os olhos do mundo já estão de olho nele.

