Uma criança de 9 anos levanta uma barra com 180 libras, o equivalente a cerca de 81,6 kg, durante uma competição. O vídeo chama atenção pelo peso e pela idade da atleta, mas Lucy Milgrim não é um caso isolado. Crianças cada vez mais novas aparecem em academias, competições e redes sociais mostrando treinos de força.
Lucy, de Long Island, em Nova York, começou a acompanhar o pai na academia aos 8 anos e depois passou a competir no powerlifting, modalidade que reúne levantamento terra, agachamento e supino. Em março de 2026, aos 9 anos, ela participou do Arnold Sports Festival, nos Estados Unidos, onde realizou o levantamento registrado no vídeo publicado em suas redes sociais.
O desempenho chama atenção, mas o caso também ajuda a mostrar como o treinamento de força passou a ocupar espaço entre crianças e adolescentes e como essas performances ganharam uma segunda vida nas redes sociais.
Crianças também estão chegando às competições
A presença de crianças em modalidades de força não está restrita aos vídeos que viralizam. Nos Estados Unidos, competições de powerlifting passaram a reunir mais participantes nas categorias mais jovens.
A USA Powerlifting criou, em 2015, uma categoria para atletas de 8 a 13 anos. Segundo dados divulgados sobre a modalidade, a categoria começou com cerca de dez participantes em uma competição nacional e chegou a 65 em 2026. A previsão para o próximo ano é de 120 vagas.
O powerlifting não é a única modalidade que aparece nesse cenário. Crianças também podem ser vistas praticando crossfit e outros tipos de treinamento de resistência, muitas vezes com os treinos registrados e publicados pelos próprios familiares.
O crescimento desses conteúdos mistura esporte e exposição digital: uma marca obtida em uma competição pode ser gravada, publicada e alcançar milhões de pessoas fora do ambiente esportivo.
Criança pode fazer musculação?
O treinamento de força não é, por si só, proibido para crianças. A recomendação de entidades médicas é que a atividade seja adaptada à idade, supervisionada e realizada com técnica adequada.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) considera que o treinamento de resistência pode fazer parte da rotina de crianças e adolescentes. A entidade aponta que programas graduais podem começar a partir dos 8 anos, com exercícios adequados ao desenvolvimento da criança, supervisão individual e progressão da carga.
A recomendação não significa, porém, que uma criança deva reproduzir o treinamento de um adulto ou buscar cargas máximas. O objetivo deve estar relacionado ao desenvolvimento da força, coordenação e condicionamento físico, e não à tentativa de atingir marcas a qualquer custo.
A Academia Americana de Pediatria também considera seguro o treinamento de força para crianças e adolescentes quando há supervisão qualificada e técnica correta. A entidade afirma que programas bem planejados não demonstraram prejudicar o crescimento ou as placas de crescimento.
Antes da puberdade, o ganho de força ocorre principalmente por adaptações neuromusculares. Em outras palavras, a criança pode ficar mais forte porque aprende a utilizar melhor a musculatura, sem necessariamente apresentar o mesmo aumento de massa muscular observado em adultos.
O que importa além do peso levantado?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças e adolescentes de 5 a 17 anos façam pelo menos 60 minutos de atividade física por dia, incluindo atividades que fortaleçam músculos e ossos pelo menos três vezes por semana. O Guia de Atividade Física para a População Brasileira segue a mesma orientação.
Em treinos de força, porém, a carga não é o único fator a ser observado. Técnica, supervisão, frequência e tempo de recuperação também são importantes, especialmente quando a criança participa de competições.
No caso de Lucy, os 81,6 kg levantados aos 9 anos transformaram uma marca esportiva em um vídeo visto por milhões de pessoas. E é justamente nessa combinação entre desempenho infantil e exposição nas redes sociais que o fenômeno ganha outra dimensão: quanto mais crianças aparecem treinando e competindo, maior também é a discussão sobre os limites e os cuidados dessa prática.

