“É preciso aproximar a literatura da vida”, afirma autor sobre Torto Arado

Vencedor do Prêmio Jabuti de 2020 e 2024, Itamar Vieira Júnior, 47, é responsável por obras que retratam a Bahia e suas singularidades. Sua lista de obras inclui: Torto Arado (2019), Salvar o Fogo (2023) e Coração Sem Medo (2025).

Com capas e narrativas que estimulam o imagético do leitor a criar uma conexão com os personagens e a visualizar as cenas descritas nas quase 300 páginas, Itamar acredita que a literatura só funciona se tiver como base a noção de que “o mundo é uma entidade viva”.

Em entrevista à CNN Brasil, o autor comenta sobre o processo criativo por trás das obras e compartilha sua visão sobre o retrato contemporâneo dos cenários nordestinos.

“Eu acho que é preciso aproximar a literatura da vida, e nós vivemos num mundo que é vivo; ele não existe apenas como um cenário, como um palco, mas como uma personagem, uma entidade mesmo, e está contracenando com os personagens humanos. De alguma maneira, eu tento, quando estou escrevendo, transpor isso para o texto, para a narrativa”, declara.

Ao dividir como seu processo de criação funciona, Vieira disse acreditar que sua formação como geógrafo é o que lhe permite “observar as pessoas e o mundo de uma maneira integrada, viva”. Ainda que note uma forte influência de sua segunda profissão, o autor ressalta que a literatura surgiu antes em sua vida e moldou grande parte de sua personalidade atual.

“Não existiam escritores de onde eu vim, do meio, de onde eu nasci, de onde eu vivi. A geografia me deu uma formação sobre o mundo, sobre as pessoas, que eu não sei se eu teria se eu não tivesse enveredado por esse caminho”, afirma.

Literatura nordestina: “Região muito plural”

Natural de Salvador, na Bahia, Vieira usa a cidade em que cresceu como cenário de grande parte de suas obras. Elogiando os autores contemporâneos atuais por tratarem sobre os estados nordestinos e suas singularidades de forma plural, ele afirma não enxergar mais uma visão estereotipada sobre a região.

“O Nordeste é a área de ocupação mais antiga do país, onde esse encontro entre colonizadores, povos originários e outros povos da diáspora aconteceu em um primeiro momento. Então, há uma particularidade sobre essa região que não se apaga com o tempo. Mas há muitos olhares e muitas leituras sobre o Nordeste”, explica.

O autor reforça que, ainda que os locais tenham muitas questões e desigualdades físicas e sociais, também é preciso destacar a história e a importância da localidade.

“As experiências não são as mesmas. Do Piauí à Bahia, elas são diversas. E o que eu tenho observado na literatura contemporânea é que elas cada vez mais se encontram publicadas e estão sendo escritas. E isso é bom para que a gente conheça a região a partir da sua diversidade”, completa.

Torto Arado e Salvar o Fogo no Prêmio Jabuti

Questionado sobre sua relação com as premiações literárias, Itamar admitiu que, ao mesmo tempo em que reconhecem o trabalho de um autor, os prêmios podem incentivar uma certa competitividade dentro do meio.

Eles nunca devem nos fazer pensar, imaginar, que somos melhores do que somos. Porque o desafio é justamente este. É avançar cada história, cada livro, a cada trabalho. É entender que nós não estamos prontos, mas estamos em formação”, destaca.

Relatando ter ficado surpreso com ambas as vitórias no Prêmio Jabuti — em 2020 por “Torto Arado” e em 2024 por “Salvar o Fogo” —, Júnior finaliza ressaltando que a literatura brasileira atual segue “revelando muitas histórias, muitos autores de excelência”.

*Sob supervisão de Gabriela Maraccini, da CNN Brasil

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